quarta-feira, outubro 25, 2006
posted by Mar da Lua at quarta-feira, outubro 25, 2006

O jantar foi demorado e degustado. Nenhuma das duas parecia saber que o resto do mundo existia lá fora, que a chuva continuava a cair, que o vento levava consigo as folhas das árvores sem tempo para despedidas, que a cidade se emergia da noite e que os relógios da humanidade continuavam, impávida e impiedosamente a tiquetaquear, a bater as horas sem se compadecerem daquele momento tão mágico que as duas guardavam numa arca comum e que, aos poucos, ia fazendo história e guardando tesouros.

Já no carro enquanto estacionava à beira rio, Marta lutava em desespero de causa, contra todos os CDs que insistiam em cair-lhe do porta luvas enquanto procurava o único que queria ouvir.

- Este carro ‘tá a precisar de levar uma volta! Praguejava enquanto Maria tentava apanhar os CDs que, em jorros, se tinham espalhado aos seus pés.

- Onde é que vamos? Inquiriu Maria com a naturalidade de uma certeza revelada de que a noite lhes reservava ainda a magia da surpresa do Estar e do Ser.
- Podíamos ir…ao cinema? A uma discoteca? A um Bar? Depende…o que é que te apetece?
- …Tu! Apeteces-me Tu Marta.

Aquela ínfima partícula linguística, aquela palavra…uma só palavra, atirou Marta para o abismo de uma realidade que temia quase tanto quanto desejava, da qual fugia com o mesmo desespero com que a sabia inevitável e lutava por ela. Muda, tonta, entorpecida, aterrada e excitada pela velocidade com que sentia o sangue bombear-lhe as veias e chegar, em milhares de minúsculos arrepios, a todos os milímetros de pele do seu corpo. Marta não conseguia articular palavras nem pensamentos na ordem caótica do corrupio, não podia pensar nem mover-se. Marta não conseguia sequer pestanejar.

Os segundos seguintes pareceram-lhe anos e a voz que cantava no rádio do carro, misturava-se com o batuque ensurdecedor que lhe batia no peito e que parecia combinar-se com um outro que jurava ouvir e que suponha ressoar no peito de Maria. Milhões de anõezinhos largavam o seu corpo após um dia de trabalho, chiliões de partículas de energia procuravam a porta de emergência daquele envolcro físico e cansavam-se na correria, atropelando-se na luta pela fuga, deixando Marta trémula de vida e com os músculos esfrangalhados pelo ribombar daquela palavra: TU!

“Porque é que me sinto assim? Pareço uma miúda !? Eu tenho que saber lidar com isto!!!! E agora? O que é que eu faço????”

O tempo alucinou o espaço. A névoa de uma realidade nova iluminou os olhos de Marta e a clareza de uma dúvida inesgotável, nublou os de Maria. Ali estavam as duas. Quietas, paradas, alheadas do mundo e de si mesmas. Fixas, somente fixas nos olhos uma da outra. A calma de Maria contrastava com o pânico de Marta, e foi à tranquilidade daqueles enormes olhos castanhos que Marta gritou por socorro, foi a eles e só a eles que Marta pediu ajuda.

O frio da alma clamou por um abraço e os dois corpos enroscaram-se na ternura dos sentidos como duas crianças, como duas irmãs, numa castidade pecadora que nos cega e nos nega nas desculpas da inocência.

Maria, mergulhada no pescoço de Marta, podia sentir-lhe o cheiro. Não do perfume, esse não importa! Mas o da pele…aquele que é marca indelével da mão de Deus criador que nos põe no mundo, aquele que arrastamos connosco desde a infância e que não passa, não nos larga e nos denuncia. Podia tocar-lhe os cabelos, aquela imensa ceara de trigo ondulante e em desalinho. Marta deixava-se guiar pela mão estonteante daquele hálito meio fresco, meio doce, embriagante que Maria respirava, pelo bater apressado e ritmado daquele peito que apertava contra o seu.

Passaram muitos dias naqueles minutos, fizeram milhares de quilómetros entre os dois bancos do carocha, mas encontram-se naquele abraço. Naquele terno e malicioso, surdo e inevitável abraço que as jurou à eternidade de um sentir e as conjurou na bênção de uma união adivinhada das bocas que se desejam como se temem, do primeiro beijo, do primeiro amor…da primeira vez .
 
14 Comments:


At outubro 25, 2006, Blogger M5Sol

Que dizer?
A beleza das tuas palavras tolda o sentido das minhas. Tudo o que pudesse dizer neste momento estragaria a magia do que ainda saboreio do que li e senti.
Belo.

 

At outubro 25, 2006, Anonymous PINGUIM

Muito bom ...
Vale a pena ter amigas com este sentir ...
Bom momento ...
beijo

 

At outubro 25, 2006, Blogger Mar da Lua

Resta-me um sorriso...dos tímidos

 

At outubro 25, 2006, Blogger nameless as a desire

Não vou compará-lo com as páginas desenhadas que me passaste um dia para as mãos, mas vou recordá-lo sempre com a intensidade e intenção primordiais.

O abraço de Ontem.

 

At outubro 25, 2006, Blogger AR

Bravo! Bravo... Aplausos de pé!

 

At outubro 25, 2006, Blogger Bandida

Intenso!!!!!!!!!!!



Beijo grande!
___________________________

 

At outubro 26, 2006, Blogger Mar da Lua

nameless: São as mesmas páginas...estas desenhadas de alma nova. O Abraço de SEMPRE

 

At outubro 26, 2006, Blogger Mar da Lua

Ar:Obrigada, mas puxa de uma cadeira e fica por cá ;)

 

At outubro 26, 2006, Blogger Mar da Lua

Bandida:Intensiveness is my middle name ;)
Beijo grande.

 

At outubro 26, 2006, Anonymous Mana

Só quem não te lê há muito é que tem qualquer coisa a dizer!!
Eu remeto-me ao silêncio, confirmo a autoria da obra, fico feliz por te sentir feliz e aguardo no primeiro lugar da fila da primeira sessão de autógrafos no lançamento do primeiro livro.
E deste lugar, não há pinguim, nem mar de espuma, nem m5sol, nem bandida que me tirem - a fila é lá atrás!!!

 

At outubro 26, 2006, Blogger M5Sol

Eu posso afirmar que não tenho intenção de 'roubar' o lugar de ninguém. Todos temos o nosso lugar e esse também ninguém nos tira. Além disso há garantia que cabemos todos, sem confusões nem atropelos!
É só continuarmos o nosso caminho, e esse é certo porque nós queremos que o seja.
Beijos.

 

At outubro 26, 2006, Blogger Mar da Lua

Mana: Fila da frente?! Tás doida?! ou não figurasses tu no "Sempre como n'Areia" tens que estar é sentadinha ao meu lado. Como nunca é editado, fazemos esta sessão no dia 31 de Fevereiro do próximo ano.

AMO-TE MANA

 

At outubro 26, 2006, Anonymous Mana

Há-de ser porque as coisas boas são ainda melhores se foram partilhadas... O que é que pensas que eu vou fazer com o prémio do Euromilhões que tu já puseste na minha conta!?!?!?
E há lugar para todos??? Não sei se há!!!
Eu tenho mesmo que ir à frente que é para o pessoal não ficar muito farto da festa os pinguins! Que seja numa Fnac com muito espaço e que comece a horas! Isso é que é importante!

 

At outubro 29, 2006, Blogger Mar da Lua

Maninha:Que começasse já era bom.Significava que existia...good enought hein?